O Evangéio segundo o homi do sertão - Weslley Moreira de Almeida

Certo dia Deus acorda
Oia aqui pra baixo e diz:
- Oxente! Esse povo tá ficano doido é?!
Criei a terra, o céu e o mar
As pranta e os animá
E eles – homi e muiê
Mas tá um no prato do ôtro meteno a cuié,
Tão se acabano, acabano o praneta, moço
E oie que no iniço tudo era bão, desde esboço!

As injustiça tá arretada
Os homi só qué dominá
Os seres que se dize humano
Qué é mermo enfiá a faca no buxo do outro,
Como se diz entre eles mermo,
“Farinha poca meu pirão primero”
É tanta gente desumana precisano se consertar...
Já tô veno...
Vô tê que mostrá pra esse povo a agir como gente mermo...

Jesus meu fio, venha cá!
Oia pro desgracero que tá se assucedeno lá imbaxo
Minhas criatura prefirida meu fi!
Essa gente tem é sorte, vice
Pro mode se num fosse meu amô pro eles
Que é maió do que seus pecado
Eles tarium tudo arruinado, fritim,fritim...
Todo mundo lascado.

-Não se apoquente meu pai
A gente já vai arrersorvê esse causo
Num vai ser farci não
O cálice é pesado
E o que se tem nele, é amargo
Mas há o que se fazê.

- Ta bom meu fio
Entonce tu vá lá
Pra lá eu te enviu
Pra esse povo sarvá
Purque a iniquidade
Já num ta mais pra se guentá.
Num é que Jesus foi mermo homi?!
Desceu em forma de gente
Num ventre de uma tá de Maria
Lá de Belém da Judea
Muiê virge, valoroza, de fé
Sofreu restrição sociá da comunidade
E até mermo
De seu marido, José
Que num entendeu nadica de nada
Da gravidez inesperada.
Mas Deus-Paim mandô um anjo
Pro mode falá cum ele, o José
Através dum sonho
E expricá o acontecido
E só depois disso entonce
É que se ficô tudo compreendido.

Após muita aflição e perseguição
Nosso Sinhô teve que nascê num dormitório de jegue
Numa tá de manjedora lá
No meio de animá e de capim
Pro mode de não ter dindim
Pois num era de familia de posse
Êita que situação ruim...

Mas tudo acabou-se dano certo
Essa criança foi cresceno, cresceno...
Em artura, matutez e graça
Diante dos homi e de Deus.
Aos trinta ano foi batizado
Prum tá de João Batista, seu primo
Que vivia no deserto
Comeno uns garfanhoto e mé sirvestre
Pregano arrependimento
Às vibura da época
Escribas e farizeus
Ô raça de cabra safado...!
São piores do que um ateu...
Mas deixa isso pra outra conversa
Vamo dá continuidade ao causo em pauta.

Pois entonce, logo depois desse batismo
Nosso sinhô contemprô o Esprito Santo!
Que veio sobre ele e disse:
“Esse é meu fio amado
Em que tenho prazê danado!”
Aí sim o Nosso Sinhô começô seu ministero
Que foi grande de arruiná
As estrutura sociá da época.
É que ele – Nosso Sinhô,
Começô a curá
Libertá
Ensiná
Restaurá

Aos rico pregô pobreza de espríto
E aos pobre abraçô com riqueza de amô.

Mas um tá de Judas, um dos seu dircípro
Quis colocá tudo a perdê
Mas Jesus não ficou arretado com ele não
Já sabia de tudo...
Isso já tava inscrito nos prano divino
Pois pra o nosso Deusim nada é oculto.

Desde aí entonce
Nosso mestre foi cuspido
Deram com um caniço em sua cabeça
Puseram nele um pano avermeiado
E uma coroa cheia de espinho.
Fizeram gozação com ele, moço...
O chamano com muito sarro de “rei dos judeus”.
Colocarum num madeiro
O prego lhe fez muita dô
Os espinho lhe aprofundava o coro da cabeça
E ele, sufocado, agonizô.

Mas nosso Sinhô num desistiu não
Tava por demais arresovido
Prosseguiu
Se manteve firme
Até o finá ficô.


É aquela cruz era que nem mandacaru
Dolorida e espinhosa
Mas de onde se saia líquido em tempo sequioso
Dali saiu líquido precioso
Pra nossas arma banhar.
E como as água do velho Xico
Irriga, transforma, faz nossa vida briá.
Retirarum seu corpo da cruz
Colocarum num túmulo
Num negócio chamado sepucro
O cemitério deles lá
E nele ficô até guarda a vigiá
Mas num adianto não
Mermo assim a pedra rolô
Ele resucitô
Ressurgiu dentre os môrto
Se levantô
Êita cabra arretado é o Nosso Sinhô!

E hoje Ele cum essa atitude de amor
Um candiêro eterno nos dexô
E nele a chama inapagarvi
Da esperança e do amô
Pra andarmo iluminado nesse mundo de escuridão
Viva a Nosso Sinhô!

Coração em pó - Natália Mallo

Será que o coração é só
Uma pá de areia
Que o mar leva e trás todo o dia
E a gente nem suspeita
Será que o coração é só
Grão de açucareiro
Que a cigarra trás da cozinha
Do grande formigueiro
Será que o coração é só
Cósmica poeira
Que o luar conduz e alinha
E o tempo vem e cheira
Será que o coração é só
Cinza da cabeça
Que quer fogo de pomba-gira
E fuma-se a si mesma
Coração em pó
Uma colher dá 500mL
Coração em pó
Faz bem pra alma, emagrece e hidrata a pele
Coração em pó
Desencantado artificialmente
Coração em pó
Tudo que em mim está pensando

Saber Viver - Cora Coralina

Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar

última palavra - lestics

a última palavra é sua
fique com ela pra você
meus argumentos acabaram
resta o meu silêncio pra te convencer

a minha taça está vazia
e você não tem lágrimas pra oferecer
longe demais é o lugar
que a gente vai pelo prazer de se arrepender

eu continuaria
se não fosse o cansaço
eu não festejaria
essa derrota nos seus braços
da vida, sabemos dúvidas
da vida, levamos rusgas
da vida, lembramos dívidas
da vida, deixamos músicas

inconstância

estar aqui,
pensar alí,
fazer aquilo,
motivar aquele,
exigir isso,
tornar, talvez.

falta de criatividade

querer colocar no papel,
uma dor que você não sente
querer rabiscar,
um coração insolente
querer transmitir,
uma emoção inconsciente
querer expressar,
uma mentira indecente.

Você pode ir na janela - Gram

Se não vai
Não desvie a minha estrela
Não desloque a linha reta

Você só me fez mudar
Mas depois mudou de mim
Você quer me biografar
Mas não quer saber do fim

Mas se vai

Você pode ir na janela
Pra se amorenar no sol
Que não quer anoitecer

E ao chegar no meu jardim
Mostro as flores que falei

Vai sem duvidar
Mas se ainda faz sentindo, vem
Até se for bem no final
Será mais lindo

Como a canção que um dia fiz
Pra te brindar

Você pode ir na janela
Pra se amorenar no sol
Que não quer anoitecer
E ao chegar no meu jardim
Mostro as flores que falei


Você só me fez mudar
Mas depois mudou de mim

Dumont

Metralhadoras, bombas, terror...
Dumont chora, Dumont vive!

Medo, sangue, dor...
Dumont chora, Dumont ainda vive!

Voos, vidas, mortes...
Dumont chora, Dumont desiste!

Somente à verdade sobrevivemos... será?

Todos falam em verdade com uma facilidade imensa, dizem que não devemos mentir, que enganar as pessoas só as prejudicam e ainda, que “mentira tem perna curta”. Porém, grandes mentiras fazem parte de nossa história e cultura, ou o leitor acredita realmente nos livros pedagógicos?
Os cruzados eram tão bonzinhos que invadiram o território árabe a fim de proteger a Terra Santa dos cruéis otomanos?As cartilhas escolares se esquecem de que a Europa estava mergulhada em uma crise econômica e que os heróis da Cruzada dos Nobres e das demais “limparam” o antigo Crescente Fértil e o Golfo Pérsico medieval, confiscando todas as riquezas daquele povo e dizimando populações inteiras, em nome da primeira Guerra Santa conhecida.
A Igreja protagonizou uma outra grande mentira, na verdade, várias mentiras englobadas em uma soberana, a Santa Inquisição. Época em que era bem mais cômodo mandar matar ao passo de defender suas idéias argumentando. Época em que a censura estava escancarada e não se podia sequer pensar contra o sistema, que o digam Joana D’arc, Jaques DeMolay entre tantos outros.
Como estas, muitas outras grandes mentiras estão aí, todos os dias, sendo ensinadas nos bancos escolares, grandes guerras mundiais, decisões políticas daqui e d’além mar, expansões territoriais européias, cura de doenças, imperialismos modernos, guerras de auto-afirmação travadas pelos Estados Unidos e contra eles mesmos, alguns presidentes, como o nosso metalúrgico barbudinho, enfim, estamos cercados de grandes e pequenas mentiras, o sistema é mentiroso.
Nosso dia-a-dia nos induz à mentira, pessoas mentem para manter ou até salvar negócios, empregos, amizades ou casamentos. A relação humana é baseada na mentira, o comércio, com a ascensão da pirataria, a indústria publicitária massificadora e perversa, tudo está envolvido pela fumaça da mentira. E ainda assim, todos falam em verdade, em princípios, mas aí cabe uma pergunta: será que a própria verdade não se tornou uma grande mentira?
Não estou aqui para fazer qualquer apologia á mentira, só considero a verdade, em nossa sociedade, um sonho distante, tão utópica quanto o marxismo.
Seria lindo vivermos em um mundo das fadas, sem mentiras e que se cada um fizesse sua parte, teríamos alguma chance de vivermos próximos a tal mundo, contudo, até quanto é interessante fazerem suas partes, quem vai parar de mentir e correr o risco de deixar o poder ou ainda, quem falará a verdade sem ansiar em tirar o outro desse poder. A população está acostumada com a mentira e, por conseguinte, não acredita mais na verdade das coisas.
Eu tento fazer a minha parte, ou seja, escrevo...

Se o alienista estivesse vivo...

Algumas vezes, peguei-me pensando no desespero de Simão Bacamarte, o alienista machadiano que tratou a loucura em Itaguaí, se vivesse em nossos dias.
Será que a Casa Verde estaria repleta de pacientes? ou, seria Bacamarte, ainda, seu único interno?
Acredito que Simão ficaria louco sim, principalmente após buscar por lunáticos de nosso Brasil. De Sarneys a Luiz Inácios, o país está lotado de dementes, dignos dos cuidados do médico. A pergunta, agora, é: será que o alienista conseguiria erradicar a insanidade brasileira ou ficaria como Papai Noel em uma arena de tourada?
É, Bacamarte teria um grande desafio, só para começar, curar uma grande parte da população, que comemora os 50 “contos” das “Bolsas Pelo Amor de Deus” DADAS pelo governo e se acomoda em frente da Rede Globo, para assistir à novela das famílias perfeitas e sem problemas, e depois dizem que “Pão e Circo” era apenas política do Império Romano. O médico também teria que fazer terapias com aqueles que matam serviço, esquecem da família, enfim, esquecem de viver para acompanhar o Datena ou, para ser mais atual, o Geral do Brasil. Simão deveria ainda, cuidar dos eleitores de Malufs, Pittas, Collors e tantos outros bandidos públicos, curar os seguidores da Lei de Gérson, os fanáticos religiosos, os que não acreditam na importância de uma boa educação para salvar um país em freqüentes crises sociais.
Simão Bacamarte fez sucesso em Itaguaí, lotou sua casa de recuperação, ora com dementes, ora com pseudos sãos, curou a todos e terminou sua vida envolto na loucura dos curadores de loucos, enclausurado em sua própria “Casa Verde”, porém hoje, devido aos absurdos tão comuns, já incorporados em nosso cotidiano, Simão Bacamarte, o célebre alienista, contado por Machado de Assis, não se atreveria internar outro paciente que não ele, em seu manicômio particular, pois seria apenas mais um louco dentre todos os que corajosamente se arriscam no grande hospício que nós conhecemos por BRASIL.

O mel da vida, tiram-no!

Nada pode dar errado, planejei tudo, vai ser o melhor dia da vida dela! Comida, bebidas, tudo está ok. Flores, velas, música, tudo perfeito. Agora é só esperá-la e pronto, será uma noite inesquecível!
Mal ele sabia que a estava certo, seria uma noite inesquecível, mas a música, a comida, nada que havia preparado seria aproveitado por ela. Era aniversário de namoro daquele casal, o namorado, apaixonado, preparou tudo como no sonho que a amada lhe contara há alguns dias antes. E de repente, o estrondo! É tiro? Ele se pergunta, enquanto as balas tintilam sob a sua sacada – ele mora no terceiro andar do prédio. Quando toma coragem e se ergue para espiara de sua janela lateral, avista um corpo no chão e em um rompante de curiosidade, se dirige à porta, disposto a prestar solidariedade àquela vítima, ainda desconhecida.
Na entrada do prédio, um paredão humano, instantaneamente se formara; mesmo assim, ele o vence e se aproxima do corpo sufocado – a quem diz que foi o amontoado de gente que tirara a vida dela – é quando se envolve num misto de desespero, medo, raiva... Depois de descobrir que ela tinha saído do táxi bem na hora da troca de tiros entre os ladrões, que minutos antes estavam dentro da joalheria, vizinha frontal do prédio e a polícia, que atendera ao disparo do alarme do sistema antifurto que o joalheiro instalara semanas antes.
Tomado pelo vazio, debruçado sobre o corpo, que há um dia também estava em seus braços, porém feliz pelo ano de união que comemorariam no dia seguinte. Agora o sentimento era outro. Tomado pela dor, com um grande esforço, indagou-se, aos berros, por quê? Foi quando alguém se aproximou e lhe contou: dois homens teriam pulado das vidraças estilhaçadas da joalheria, desesperados pelo soar do alarme, assim que a polícia chegara, com suas sirenes acionadas e armas empunhadas. Com a aproximação dos fardados, os bandidos começaram a atirar, tiros esses respondidos pela lei, bem no momento em que aquela bela mulher, impecavelmente maquiada, com um vestido branco e longo, descera do carro e segundos depois, caia no chão. O vestido fora presente, dele no último natal. Ela estava guardando-o para aquela noite, um lindo vestido branco, que agora trazia, como que num detalhe destoado, uma mancha vermelha, próxima aos seios.
Foi quando outra sirene surgiu ao fundo, eram os bombeiros que atenderam a um chamado de alguém entre a multidão, eles abriram caminho e se aproximaram da vítima, mas inutilmente, pois morrera no instante que fora atingida. O corpo foi tirado dali e ele como única pessoa próxima, já que a família morava no interior, o acompanhara.
Assim, a noite se tornou inesquecível para aquele casal, os dois puderam aproveitar os preparativos e mais ainda, puderam sonhar. Ele, contudo, a partir daquele momento, passou a tentar entender. Seria melhor que não tentasse.
O tiro veio da polícia, os bandidos desapareceram, nunca mais souberam deles, a não ser que já tinham sido PM’s, as jóias também nunca foram recuperadas. Os policiais cruzaram fogo com os antigos colegas, pois estes faziam parte de um grupo rival, que se formara dentro da corporação e disputavam a segurança daquela região.
O jovem que pretendia pedir a namorada em casamento aquela noite, por não se contentar com as explicações oficiais, passou a investigar. Antes ter apenas aceitado, soube que o tiro partiu da polícia e que não havia necessidade de ter sido feito, só fora por se tratar de gangues policiais.
Hoje os assassinos continuam nas ruas, “protegendo” a violência, dos cidadãos que revoltados, ainda sonham com ruas de paz.
E o rapaz, desanimado, ainda procura forças para conseguir entender por que o mundo não permite pessoas felizes, se amando.

SOMOS?

Nada somos, pois por nada buscamos
Vivemos dos ventos desencontrados
Vivemos dos ventos soprados pelo vazio
E o vão se forma, dos ventos vãos.

Da vida, brigamos por tudo
Do tudo, procuramos os quês,
Dos quês, esperamos os por quês,
Com os porquês, chegamos aos tudos;
Tudos recheados de coisa alguma!

Vida, somos, ventos, quês, porquês, tudos...
NADAS!