O mel da vida, tiram-no!

Nada pode dar errado, planejei tudo, vai ser o melhor dia da vida dela! Comida, bebidas, tudo está ok. Flores, velas, música, tudo perfeito. Agora é só esperá-la e pronto, será uma noite inesquecível!
Mal ele sabia que a estava certo, seria uma noite inesquecível, mas a música, a comida, nada que havia preparado seria aproveitado por ela. Era aniversário de namoro daquele casal, o namorado, apaixonado, preparou tudo como no sonho que a amada lhe contara há alguns dias antes. E de repente, o estrondo! É tiro? Ele se pergunta, enquanto as balas tintilam sob a sua sacada – ele mora no terceiro andar do prédio. Quando toma coragem e se ergue para espiara de sua janela lateral, avista um corpo no chão e em um rompante de curiosidade, se dirige à porta, disposto a prestar solidariedade àquela vítima, ainda desconhecida.
Na entrada do prédio, um paredão humano, instantaneamente se formara; mesmo assim, ele o vence e se aproxima do corpo sufocado – a quem diz que foi o amontoado de gente que tirara a vida dela – é quando se envolve num misto de desespero, medo, raiva... Depois de descobrir que ela tinha saído do táxi bem na hora da troca de tiros entre os ladrões, que minutos antes estavam dentro da joalheria, vizinha frontal do prédio e a polícia, que atendera ao disparo do alarme do sistema antifurto que o joalheiro instalara semanas antes.
Tomado pelo vazio, debruçado sobre o corpo, que há um dia também estava em seus braços, porém feliz pelo ano de união que comemorariam no dia seguinte. Agora o sentimento era outro. Tomado pela dor, com um grande esforço, indagou-se, aos berros, por quê? Foi quando alguém se aproximou e lhe contou: dois homens teriam pulado das vidraças estilhaçadas da joalheria, desesperados pelo soar do alarme, assim que a polícia chegara, com suas sirenes acionadas e armas empunhadas. Com a aproximação dos fardados, os bandidos começaram a atirar, tiros esses respondidos pela lei, bem no momento em que aquela bela mulher, impecavelmente maquiada, com um vestido branco e longo, descera do carro e segundos depois, caia no chão. O vestido fora presente, dele no último natal. Ela estava guardando-o para aquela noite, um lindo vestido branco, que agora trazia, como que num detalhe destoado, uma mancha vermelha, próxima aos seios.
Foi quando outra sirene surgiu ao fundo, eram os bombeiros que atenderam a um chamado de alguém entre a multidão, eles abriram caminho e se aproximaram da vítima, mas inutilmente, pois morrera no instante que fora atingida. O corpo foi tirado dali e ele como única pessoa próxima, já que a família morava no interior, o acompanhara.
Assim, a noite se tornou inesquecível para aquele casal, os dois puderam aproveitar os preparativos e mais ainda, puderam sonhar. Ele, contudo, a partir daquele momento, passou a tentar entender. Seria melhor que não tentasse.
O tiro veio da polícia, os bandidos desapareceram, nunca mais souberam deles, a não ser que já tinham sido PM’s, as jóias também nunca foram recuperadas. Os policiais cruzaram fogo com os antigos colegas, pois estes faziam parte de um grupo rival, que se formara dentro da corporação e disputavam a segurança daquela região.
O jovem que pretendia pedir a namorada em casamento aquela noite, por não se contentar com as explicações oficiais, passou a investigar. Antes ter apenas aceitado, soube que o tiro partiu da polícia e que não havia necessidade de ter sido feito, só fora por se tratar de gangues policiais.
Hoje os assassinos continuam nas ruas, “protegendo” a violência, dos cidadãos que revoltados, ainda sonham com ruas de paz.
E o rapaz, desanimado, ainda procura forças para conseguir entender por que o mundo não permite pessoas felizes, se amando.

Um comentário:

Anelise disse...

Adorei...é bonito, porém triste